
“Não acredito que estamos passando por essa situação surreal. ”
Caio refletia enquanto corria lado a lado com Cassio. Os dois adolescentes percorriam desesperados por um planalto fugindo de três perus gigantes que estavam ansiosos por abocanhá-los.
– Ah! Ah! Eu não quero morrer… nós vamos morrer! – Cassio gritava estridentemente já sentindo o bafo quente dos animais selvagens atrás dele.
– Cala a boca e corre!
“Eu também achava que iria morrer. Atrás de nós, aquelas criaturas sedentas por carne, a nossa frente o fim da linha. ”
Caio agarrou a mão de Cassio, que diante do medo havia parado de correr, o puxou no último segundo quando estava prestes a ser engolido por um dos perus. Quando se deu conta, ambos se encontravam em queda pelo desfiladeiro. Ao fim, mergulharam profundamente em águas turvas de um rio que se atrevia a adentrar pela passagem estreita. Afundando, Caio recordou-se que tudo começara com um telefonema.
***
Caio despertou com o barulho do telefone que tocava insistentemente. Ainda era muito cedo, véspera de natal. O quarto estava caótico como sempre, roupas espalhadas pelo chão, livros escolares que estavam empoeirados por nunca serem usados, restos de comida e algumas baratinhas circulando pelo espaço privado do jovem.
Sua mãe gritou para que ele levantasse logo. Muito aborrecido, ajeitou seu moicano e foi. Quando se dirigiu a sala, ficou espantado com a mãe: a flagrou de calcinha e sutiã se exibindo na câmera.
– O que você está fazendo mãe?
– Estou mostrando minhas tatoos para os meus fãs queridos. Vem dar um oi para eles.
– Fãs?! Mas que fãs? – O jovem se aproximou da mesa do computador.
– Descobri há pouco tempo um negócio de cam girl e estou adorando. Tenho centenas de fãs, veja.
O menino olhou para a tela e ficou chocado com a quantidade de pessoas online interagindo com a mãe dele.
– Mãe, você está ligada que isso aí é a maior roubada né?
– Ah! Lindo… me deixa vai! Por que você não experimenta?
O jovem ficou revoltado e abaixou a tela do notebook da mãe com violência.
– Vai sonhando que eu vou botar meu bilau na webcam!
– Aposto que ia fazer sucesso. – Ruth se levantou e pegou um vestido. – Olha só, eu te chamei porque recebi um telefonema da escola, hoje vai ter uma recuperação especial. É melhor você se arrumar logo e ir.
– Mãe, hoje é véspera de natal. Quem vai estar na escola? Isso é trote.
– Deixe de desculpas e vai para a escola agora! Filho, estão te dando a última chance para você passar de ano. Menino, você já tem dezessete e não sai desse fundamental!
– E quem se importa?
– Eu me importo. Anda logo, vai!
– Você quer mesmo é ficar sozinha para se exibir na webcam.
– Ótimo. É isso mesmo. É muito bom ter um filho que me entende. Agora vaza e vê se passa de ano finalmente.
Caio bufou e revirou os olhos.
“Sério que ela acha que eu vou para a escola! ”
Caio saiu de casa e começou a vagar pela rua. Para todos os lados pessoas fazendo compras, trânsito, tumulto, xingamentos e afins. Que estupidez. Pensava sobre o que aquilo realmente significava. Sem saber para onde seguir, resolveu ir até a escola para conferir se realmente haveria uma recuperação em plena véspera de natal. Ao chegar no local, o portão estava aberto. O silêncio era perturbador. Não estava acostumado com aquilo. Mesmo assim seguiu em frente e foi até o pátio. Lá chegando, encontrou outros três jovens que ele já conhecia. Todos eram do nono ano. Permaneceram em silêncio aguardando.
Com todos reunidos, surgira uma senhora para falar com eles.
– Bem-vindos, queridos alunos. Fico muito feliz por terem atendido meu chamado para essa recuperação especial. Me chamo Noely, sou uma instrutora substituta e vou guia-los nas tarefas que os ajudarão a concluir o ensino fundamental. Vamos lá!
Os quatro a seguiram silenciosamente. Caio observava Noely com desconfiança. Instrutora, nem sequer professora era, com seus cabelos longos grisalhos, alta e robusta trajando calças largas vermelhas e uma camiseta regata branca.
Ao chegarem na sala, sentaram-se em círculo nas carteiras. Noely pediu que se apresentassem. Começaram pela única garota do grupo.
– Meu nome é Naoani, tenho quinze anos, zerei português, ciências, história, geografia e artes. Não tenho saco para leituras ou qualquer coisa que demore muito entendeu, prof.? – A garota falava enquanto mascava um chiclete.
– Entendi querida. Para você deve ser difícil até respirar, né? – Noely falou, deixando a todos surpresos com o sarcasmo.
Então, a senhora apontou para o próximo.
– Eu sou o Cássio, tenho catorze anos e nunca repeti de ano. Mas esse ano eu fiquei muito distraído sabe, teacher, e acabei me dando mal em… todas as matérias.
– Pena que não tem a matéria ócio, não é verdade? Senão você teria passado em pelo menos uma, querido!
Cassio ficou indignado com a resposta, mas antes que ele se manifestasse, a senhora desbocada apontou para Caio.
– Me chamo Caio, tenho dezessete. Fiquei de recuperação em todas as matérias também.
– Estava o ano todo distraído igual ao seu coleguinha? – Noely o provocou.
– Não, senhora! Eu estava sem saco de estudar mesmo.
Caio olhou emburrado para aquela mulher que parecia um nórdico travestido. Para ele, aqueles olhos azuis tinham um brilho sinistro.
– E por fim, quem é você? – A estranha substituta continuou.
– Eu me chamo João, passei em todas as matérias no terceiro bimestre.
– E o que você faz aqui então? – A mulher jogou a cabeça para trás e abriu os braços em surpresa.
– Quando soube dessa recuperação pensei em vir para ajudar os meus colegas.
– Ah! Que gracinha. Um bom menino enfim. – Noely se aproximou abraçando João e projetando a cabeça dele por entre os exagerados seios dela.
“Que pirada essa substituta”. – Pensou Caio.
– Pois então, vamos começar! – Noely pegou uma meia, dessas decorativas de natal e pediu para que sorteassem um papel. Assim os jovens fizeram. – Cada um de vocês vai pegar uma tarefa. Leiam e respondam. Começando com Cassio.
O jovem pegou o papel e sem pensar duas vezes disse uma frase olhando para Caio.
– Quando estou perto de você eu fico hesitado.
Todos ficaram sem entender Cassio.
– Que tarefa você tirou? – Noely estava curiosa.
– Minha tarefa é fazer uma frase que contenha o verbo hesitar.
– E você sabe o que significa hesitar?
– É ficar cheio de desejo por alguém, teacher.
– Não! Não e não! Hesitar não é excitar. Presta atenção, garoto! – Noely enfim percebeu o que tirava a atenção de Cassio: era Caio. – Hesitar é demonstrar dúvida! Agora garoto, você não vai ficar excitado porque eu não vou hesitar em te dar uma lição.
De repente aqueles olhos azuis brilharam de forma a cegar a todos presentes naquela sala. Quando Caio se deu conta, ele e Cassio estavam em um ninho de perus gigantes, prestes a serem devorados. Então correram até que não restasse mais nada a fazer senão se atirarem num precipício.
Nos poucos segundos que ficaram na água, Caio agarrou o pulso de Cassio e emergiu com ele. Cassio estava desacordado. Caio recordou-se das aulas de primeiros socorros e fez o serviço sem pestanejar. De repente, Cassio abriu os olhos quando suas bocas estavam unidas. Ele ficou rubro e Caio mudo. Caio hesitando e Cassio excitando. E o envergonhado abraçou Caio.
– Oh! Caio! Você é a razão da minha distração, passei o ano todo te desejando que me perdi por completo.
– Calma aí, cara! Eu só estava te ajudando. Eu não curto garotos, nem garotas, nem nada. Só quero ficar de boa, na minha, entendeu?
A dor da rejeição foi demais para Cassio. Lágrimas prateadas começaram a rolar dos olhos dele. E como num passe de mágica o cenário em que estavam se desfez, surgiram sete jovens cantando e dançando e Cassio se juntou a eles no mesmo ritmo. Era uma música da qual Caio só entendia: Love you so bad, love you so bad, alguma coisa em uma língua asiática, e Love you so mad, love you so mad. Caio estava perplexo e confuso com a situação.
Enquanto Cassio e os jovens cantores faziam uma coreografia dramática, uma barreira se rompeu e levou tudo pela frente com a força da água. Caio foi junto sendo arrastado. E quando parecia que tudo estava perdido, ele reapareceu na sala de aula.
– Continuando com nossa aula. – Noely sorria discretamente observando a feição de Caio.
Caio estava assustado olhando para Noely. Reparou que Cassio não estava mais na sala de aula. E que ele não estava molhado. Era a vez de Naoani. Ela pegou o papel e leu, depois começou a falar.
– Essa é muito fácil.
– Qual é a sua tarefa? – Noely perguntou sem ânimo.
– Responder uma pergunta.
– Qual pergunta? – Noely se mostrou mais interessada.
– Quem foi o personagem histórico Noé?
– Então diga-nos, logo! – Noely já estava impaciente.
– Papai Noé é um ser mitológico, portanto nunca existiu. Quem nos dá presentes são nossos pais. – Naoani falou com entusiasmo sua resposta reveladora.
– Esse tipo de afirmação, Naoani, é muito irritante. Por que só as crianças acreditam na magia de Noé?
As últimas palavras da professora substituta foram ditas num grito ensurdecedor. Aquele brilho malévolo veio de novo e Caio já não esperava boa coisa. Agora, ele e Naoani apareceram caídos num deserto.
– Naoani, por que você não falou uma frase simples do tipo: Noé é um cara legal, ele salvou bichinhos do dilúvio. Tinha que fazer piadinha com Noel?
– E Noel não foi o Noé?
– Você não está falando sério, né? – Caio estava incrédulo com a naturalidade que Naoani falava coisas impensadas.
Ela deu de ombros e começou a andar.
– Eu aprendi na minha família que após Noé salvar os animais do dilúvio, ele não tinha mais o que fazer com aquela arca gigante, então ele a usou para fazer a entrega de brinquedos para crianças que não ganhavam nada dos pais. Com o tempo, ele gostou tanto da boa ação que começou a distribuir presentes para todas as crianças do mundo.
– Cara, todo mundo está louco aqui?! Eu nem vou discutir isso. É demais para mim. Para onde você está indo?
– Em direção àquela estrela. Para onde mais? – Naoani apontou para o céu.
Caiu observou bem o corpo celestial.
– Aquilo não é estrela, garota. É o planeta Marte.
– Se brilha é estrela e nas histórias a estrela salva as pessoas perdidas no deserto.
– Ah! Vamos! Essa merda só pode ser um pesadelo, tanto faz para que lado a gente vai!
E eles caminharam por muitas horas até que seus corpos estivessem esgotados. Já no amanhecer avistaram um castelo de algum soberano. Entraram e não encontraram ninguém. Desceram por uma grande escadaria e chegaram no que parecia uma masmorra. Naoani ficou impressionada com os equipamentos de tortura lá encontrados. Teve uma ideia súbita.
– Vamos brincar de uma coisa? Fingi que você é um assassino de aluguel ultra perigoso e procurado por todos. Daí você recebe um trabalho. Tem que me sequestrar. E depois de você me sequestrar, você resolve me torturar com esses equipamentos e aí eu me apaixono por você e fazemos o sexo mais selvagem de nossas vidas.
– Espera aí! Você surtou?! Quer que eu seja um maluco violento e depois de tudo você se apaixona por mim e ainda transa comigo?! Cara, as mulheres de hoje são muito loucas e controversas. Nem pensar. Eu vou dar um fora daqui.
– Ah! Não vai não!
Inesperadamente, surgiu um grupo musical de trocentas pessoas de todos os países do mundo, dançando e cantando no ritmo de Naoani perseguindo Caio com um chicote e gritando em velocidade extremamente reduzida: Tell me what you want, I know what you want.
E o jovem Caio rodopiava de um lado a outro fugindo daquele ataque voraz. Perdido entre os cantores se viu passar de mão em mão até cair de volta a sala de aula.
Assim que avistou Noely sorrindo e o encarando, ele deu um salto da cadeira.
– João, não pega esse papel e não fala nada. Essa mulher é um demônio e vai mandar a gente para algum pesadelo alternativo.
– Senta meu bem, porque ele já pegou o papel. – Noely radiava, literalmente, enquanto aguardava João dizer sua tarefa.
João, sem entender muito o que o colega estava falando, leu sua tarefa.
– Complete: três pontinhos, aquele que se vale de mentiras, impostor.
João entendeu a mensagem. Olhou para Noely que acenava para ele continuar.
– Eu sou o melhor aluno da escola porque minha mãe, que é professora, me dá o livro com respostas. Eu sou um embusteiro, aquele que se vale de mentiras.
João falava como se fosse uma marionete. Mais uma vez aquele brilho que cegava invadiu a sala. João e Caio repentinamente se encontravam em uma pedreira onde havia um enorme pinheiro.
– Ah! Não! De novo não. Quando essa po### vai acabar? – Caio gritou.
E naquele instante o céu se abriu e daquele turbilhão de nuvens negras surgiu o bom e velho ser que nos visita uma vez por ano à meia noite.
– Que diabos é aquilo? – João estava tremendo.
– É papai Noel… montado numa cabrita. Corre, João! Ele está vindo atrás da gente.
– Que doideira. Por que isso está acontecendo?
– É por minha causa, cara. Quando eu era pequeno meu pai fugiu com uma cabrita e desde então eu surtei.
– Seu pai fugiu com uma cabrita?! – João estava incrédulo.
– Sim, cara. Uma cabrita! Era meu bichinho de estimação e a maldita vivia sorrindo para o meu velho e o enfeitiçou com seu olhar sedutor. Tudo por minha causa. Porque eu insisti de ganhar aquele animal estúpido em um natal da minha infância.
– Você precisa superar isso, cara. Liberte-se!!!! – João gritou e então o corpo dos dois garotos foi levado aos céus, começando uma transformação ao som de uma música que ecoava por toda a parte: malhaejwo yes ‘ani’neun no, Don’t wanna stay ja ije go.
Os meninos ficaram muito impressionados.
– Céus. Isso é um pesadelo. Só pode. – Caio se olhava espantado.
– Estamos incríveis, cara!
– Incríveis!? Você enlouqueceu? Estamos de salto alto, usando sainha rodada e com peitos enormes numa blusinha mega decotada.
– E isso não é incrível? Somos princesas guerreiras da lua. Vamos detonar essa cabra e o senhor Noel demoníaco ali.
O mal velhinho montado na cabrita começou a atirar biscoitos de gengibre nos dois meninos. Eles não entenderam, até que os biscoitinhos que caiam próximos começassem a explodir.
– Qual é o plano, cara? – Caio já estava indignado e pronto para acabar com aquilo, ao som do kpop que ele não entendia, mas já estava começando a gostar.
– Usa teu cetro mágico e parte para cima dele! – João falou pronto para usar toda sua magia.
– De onde eu vou tirar um cetro mágico? – Caio estava confuso.
– Está aí, guardado no meio do teu…
Antes que João pudesse completar a frase ambos foram abatidos.
Nesse momento, Caio despertou ofegante em sua cama.
– Que merda de sonho foi esse?
O garoto levantou-se tonto e enjoado. Foi até a sala, observou a árvore de natal, a estrela que sua mãe havia pendurado na porta. Na mesa, o peru quase que todo devorado e muitas garrafas de vinho vazia. Restos de biscoito de gengibre sob a árvore junto com uma meia e um envelope que tinha em letras garrafais seu nome. Abriu o envelope e para seu espanto era seu boletim. “Aprovado e apto a cursar o primeiro ano do ensino médio. ” Surtou naquele momento. Foi correndo no quarto da mãe para lhe contar o que tinha sonhado ou o que pelo menos achava que tinha sonhado.
Ao entrar, se deparou com sua mãe agarrada a um velho barbudo, com cabelos longos grisalhos, usando uma regata branca e uma calça larga vermelha. No olhar, aquele brilho azul que lhe metia medo.
– Quem é esse cara, mãe?
– Ora filho, esse é o Noé, ele é meu fã numero um e eu o convidei para passar o Natal com a gente. Você não lembra?
– Alguém chuta meu saco, por favor, porque eu ainda devo estar sonhando!
O garoto bateu a porta do quarto da mãe e atirou-se ali mesmo no chão do corredor. Caio chegou à conclusão de que papai Noel até podia gostar de crianças, mas com adolescentes ele era um sádico filho da p###.
Looking inside of yourself
You might see someone you don’t know
♫♫♫
Ho Ho Ho. Feliz Natal 😉