
Benjamin estava a caminho do lugar que mais detestava na vida. Suas criptomoedas haviam se esgotado e precisaria de um novo trabalho para conseguir mais. Como ex-agente do governo, tinha suas regalias. Conhecido na área, não precisava se preocupar com os maltrapilhos que se uniam aos bandos para atacar e usurpar os poucos bens de outros que também mal podiam sobreviver.
Ele vivia no bairro da Liberdade de 2050. Estar vivo ainda parecia ironia. Nascera em 2012, ano o qual havia sido premeditado por um sábio como o fim do mundo. Talvez o sábio não tenha errado. Afinal, foi nesse ano que surgiu a empresa NatureVerso, com a promessa de uma revolução tecnológica jamais vista.
A princípio era só mais uma promessa mesmo, como tantas outras. Mas aos poucos a empresa dominou o cenário mundial com sua tecnologia capaz de entregar nas mãos de uma inteligência artificial todas as tarefas que antes deveriam ser pensadas por humanos. O frenesi foi avassalador. Era tudo incrível demais para ser verdade. Em pouco tempo a sociedade foi cedendo sua vida ao controle da I.A.
Não satisfeitos com o domínio do mundo real, a NatureVerso induziu as grandes massas a habitarem também o mundo virtual através de seus implantes cerebrais que tinham a capacidade de interagir com cem por cento do cérebro humano, garantindo seu aproveitamento total.
E quando se deram conta de que haviam perdido totalmente o controle de suas vidas, a sociedade caiu em ruínas. Com todos os sistemas controlados pela NatureVerso, era impossível fazer qualquer transação financeira sem antes ser validado pelos implantes inseridos nas pessoas. Aqueles que se recusaram a se tornar parte dessa rede, se tornaram os excluídos da sociedade.
Enquanto caminhava em direção ao metrô, pelas ruas fétidas do bairro japonês, Benjamim sentia ódio de si mesmo por ter feito parte do governo que conduziu todos àquela situação degradante. Adentrando a estação, encontrou o painel de onde poderia se conectar com a NatureVerso.
– 00110010 00110000 00110001 00110010 – Benjamin se identificou.
– Código válido! Em que posso ajudar? – Respondeu a I.A.
– Vim em busca de trabalho!
– Conecte ao eletrodo. – A I.A. orientou o homem que já estava habituado com o procedimento.
Benjamin conectou o eletrodo umidificado com um hidrogel de um polímero condutor que permitiria que a NatureVerso acessasse seu cérebro. Após fazer sua varredura rotineira, a I.A. respondeu:
– Não é possível inserir mais informações. Você não tem mais serventia para operação. A partir desse momento será considerado DEPRECATED!
– Não! Benjamin gritou em desespero. – Ser considerado deprecated queria dizer que a pessoa não tinha mais serventia para a NatureVerso e dessa forma não haveria mais formas “legais” de conseguir criptomoedas para fazer transações. – Por favor, eu imploro! Eu consigo fazer o trabalho.
– Não. Definitivamente deve ser descontinuado! Em caso de sobrecarga seu sistema entrará em colapso.
Benjamin ficou em pânico, seus ombros enrijeceram e a tensão dominava seu corpo. Precisava pensar em algo rápido antes que a I.A. concluísse o atendimento.
– Deve haver algo, extraoficial, que um ex-agente do governo fiel a NatureVerso possa fazer. Por favor, pondere essa opção! – Benjamin tentou recobrar a calma e se expressar com confiança, visto que a I.A. também poderia fazer uma autoanálise dos sentimentos dele.
Em questão de segundos, a resposta chegou.
– Sim. Há uma tarefa que se encaixa no seu perfil.
***

Ao retornar ao seu minúsculo apartamento de trinta metros quadrados, Benjamin estava chateado porque não tinha conseguido um adiantamento da I.A. Estava sem nenhum crédito para conseguir comprar comida. Sentiu a boca encher de água quando recordou a última vez que tinha comido uma picanha. Foi em 2040, quando comemoraram em um churrasco a implantação total da NatureVerso nos sistemas mundiais.
Aborrecido, foi em busca da filha que vivia trancafiada em seu quarto. Bateu a porta, mas ela não respondeu. Decidiu abaixar a maçaneta para ver se estava aberta. Sem dificuldade a porta se abriu, quando Benjamin visualizou o quarto por completo, se irritou ao ver o holograma de um homem de meia idade acariciando os seios da filha que estava deitava em um divã.
O homem no holograma percebeu a entrada de Benjamin e esbravejou.
– Sai fora, cara! Está invadindo minha sessão!
– Sai fora, você seu merda! – Muito irritado, Benjamin pegou a assistente pessoal de sua filha e a atirou na parede, destruindo o aparelho e colocando fim no holograma.
Com o barulho, Beatrice levantou assustada, retirando os óculos de realidade virtual que usava e cobrindo os seios.
– Que diabos você está fazendo aqui, pai!?
– Eu que te pergunto! Que merda estava rolando aqui? Eu chego em casa e te encontro com um cara em cima de você alisando seus seios. E você aí vestida como uma gueixa vagabunda.
– Calma, aí! Era só zoeira, não é nada demais. O que mais você quer que eu faça, droga! Eu não posso sair dessa porcaria de apartamento cheio de ratos, pelo menos deixa eu me distrair.
Benjamin balançou a cabeça de um lado para outro. Naquele momento sentia que tinha fracassado totalmente como pai. Não conseguia nem se quer manter uma vida digna com a filha. Beatrice percebeu que o pai estava cabisbaixo demais.
– Olha, desculpa, ok?! Eu não vou mais fazer isso.
– Não me importo com o que vai fazer. Eu só queria ter alguém com quem conversar nesse momento.
– Legal. Se não estiver com vontade de me matar agora, podemos conversar.
– Eu não tenho mais condições de sustentar nós dois. Fui considerado deprecated hoje.
Beatrice se espantou. Aquela notícia era perturbadora para a jovem garota. Aos rejeitados pelo sistema, não restava nada, além de um submundo de crueldade e violência. Benjamin não conseguiu dizer mais nada. Se retirou do quarto da menina e foi seguido de perto por ela. O homem sem esperanças, apenas deitou no sofá onde costumava dormir. Algumas lágrimas rolaram do rosto de Beatrice ao ver toda a infelicidade do pai.
***
Benjamin estava em lugar familiar, e as lembranças encheram seu coração de melancolia. Não suportou e começou a chorar desesperadamente. De repente, Beatrice surgiu a sua frente.
– Pai? Por que você está aqui, chorando?
– Beatrice! Como é possível? Tudo isso aqui? Não pode ser real.
– De certa forma, não é! Que lugar é esse?
– Se chama Bloxburg. Quando eu era criança eu jogava esse jogo e foi nele que conheci sua mãe. E desde então sempre ficamos juntos online até o dia em que nos conhecemos pessoalmente.
– Ah, pai! Quando você entra na NatureVerso, ela usa suas lembranças para te deixar confortável. Mas isso parece ser cruel demais.
– Por que você está aqui? E vestida como gueixa? Não tinha prometido parar com isso?
– Sim, eu prometi. Antes de saber que você está na merda.
– É… – Benjamin sorriu – estou na merda mesmo. Não há mais espaço em meu cérebro para compartilhar com a I.A. E agora o que me resta…
– Continua, o que resta?
– Uma última missão. Encontrar um maldito hacker e matá-lo, visto que o cara tem informações que podem prejudicar o sistema.
Beatrice se espantou com a informação e permaneceu muda. Benjamin continuou:
– Eu segui todas as instruções da I.A. para encontrar o hacker e vim parar aqui nesse lugar que parece um sonho e ainda com você.
– É pai… – Beatrice estava em dúvida se deveria contar o motivo de sua presença naquele lugar. Porém, prosseguiu. – A I.A. estava certa. Eu sou o hacker.
Benjamin arregalou os olhos e deu um passo para o lado, quase cambaleando.
– Não é possível! Você é só uma garota boba!
– É isso o que você pensa de mim. É uma pena. Enquanto você acha que sou uma vagabunda oriental que se prostitui na rede, a verdade ficou oculta sob esse disfarce. Quando eu entro na rede, posso vasculhar a memória de qualquer um que esteja em contato comigo, consigo acessar todos os hubs conectados aquela pessoa e toda a informação a que eles tiveram acesso. Aproveitei muito bem essas informações para garantir uma quantia generosa de criptomoedas para nós dois. E o melhor, eu sei como acabar com a I.A.
– Como!? – Benjamin ainda estava incrédulo.
– Infelizmente, precisa ser desligando a mente de todas as pessoas que se sujeitaram a carregar dados em seus cérebros.
– E você consegue fazer isso?
– Sim. Nunca fiz, porque sinto pena das pessoas. Elas não têm culpa de serem manipuladas pelo sistema.
– Eu deveria te matar agora! – Benjamin riu escandalosamente. – Minha filha é uma gueixa cibernética, hacker e vagabunda! Meu bem, vai em frente e ferra o sistema.
Benjamin fechou os olhos e foi desconectado da rede. Preocupada, Beatrice saiu do mundo virtual e foi ver o pai. Estava morto no sofá. Sua mente não suportou a sobrecarga.
Entre lágrimas descontroladas, Beatrice entrou no sistema pela última vez. Enviou o sinal para todos os hubs e desencadeou o que seria o fim da NatureVerso.
Conforme as mentes das pessoas eram eliminadas, a I.A. fugia tentando se manter ativa. Mas o fim era iminente. O único arrependimento que Beatrice carregará em sua vida é de não ter executado esse código quando ainda era uma criança.
***
Esse conto foi escrito para um desafio de escrita do site INKSPIRED
A Imagem da Capa é uma criação de Wilmer Martinez e você pode encontrá-la gratuitamente no Unsplash.